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“Há liberdade, mas isto não é uma anarquia”

“Há liberdade, mas isto não é uma anarquia”

António Manuel Henriques de Jesus, 49 anos, é natural de Ferreira de Zêzere, onde se iniciou como bombeiro há 35 anos. Desempenha há quatro anos o papel de comandante de bombeiros nos Bombeiros Municipais de Abrantes e discorda do rótulo de ditador. De forma irónica, comenta: “Sou tão ditador que em quatro anos ainda não apliquei qualquer pena resultante de um processo disciplinar”. António de Jesus exerce funções de comando há 24 anos e orgulha-se do seu currículo: “Representei Portugal num exercício de fogos florestais em França. Tenho vários louvores do Município de Ferreira do Zêzere, da Liga dos Bombeiros Portugueses, Serviço Social de Bombeiros, Autoridade Nacional de Protecção Civil.”

Um elemento anónimo do seu corpo de Bombeiros deixou um texto num sítio da Internet no qual lhe faz diversas acusações. Numa delas, acusa-o de autorizar qualquer elemento dos bombeiros que tenha carta de pesados a conduzir o veículo mais caro do município. Segundo o mesmo, com os antigos comandantes, apenas podiam conduzir este veículo pessoas com devida formação para conduzir e manobrar tal carro. Por que mudou as regras?

As regras não mudaram. Referiu que era um bombeiro anónimo, eu nem sei se é bombeiro; é anónimo, não dá a cara. E não é o comandante que autoriza ou não a conduzir: o comandante manda a experiência como condutor do bombeiro para a presidente da Câmara, e a presidente é que autoriza ou não a condução de qualquer viatura, não só aquela, até qualquer outra. É assim que funciona.

Mas nesse texto anónimo diz-se que com os antigos comandantes esta situação não acontecia. O que mudou?

Os meus outros colegas também faziam exactamente assim. Neste corpo de bombeiros nem todos conduzem, talvez 50% dos homens que têm carta é que conduzem. É uma notícia que, vindo de um anónimo, tem o valor que tem. Tenho outras coisas mais importantes com que me preocupar.

Nesse mesmo texto divulgado na internet diz-se que “esse comandante de quintal que, por incrível que pareça, foi expulso do seu corpo de bombeiros pelos bombeiros e pela direcção”. Foi mesmo expulso?

Não, eu não fui expulso, não tenho no meu currículo qualquer expulsão, nem neste nem em nenhum quartel de bombeiros. Quando saí dos Bombeiros de Ferreira ainda trouxe um louvor do Município pelo trabalho desempenhado. Se isso é expulsão, eu então gostava de ser expulso todos os dias.

No mesmo sítio da internet, alguém que se identificou com bombeiro de segunda classe da sua coorporação, diz que “o melhor líder é aquele que consegue aliar todas as ideias e chegar a um consenso, convencendo que a união de todas as ideias é a melhor”. O senhor comandante respondeu: “Numa organização deste género, existe uma hierarquia e não uma democracia, e quem está para comandar, não está para agradar”. Não é possível comandar a cooperar?

Eu tenho tarefas definidas no corpo de bombeiros para isso. Por exemplo, todas as primeiras segundas-feiras de cada mês tenho reunião com as chefias; às sextas-feiras tenho reunião com os responsáveis pelas diversas áreas. E tenho recebido alguns trabalhos escritos com diversos tipos de funcionamento, que eu aceito e aplico, se for caso disso. Mas aqui há postos, não é uma anarquia, não é um posto de bombeiros para agradar, é para servir.

Confirma então que existe liberdade de expressão no seu corpo de bombeiros?

Confirmo, as pessoas têm toda a liberdade para vir ao meu gabinete expor as suas ideias. Alguns bombeiros apresentam situações de funcionamento, dizendo como devia ser, ou não, e eu leio essas propostas. Nas reuniões com os chefes, oiço as suas propostas de trabalho. Têm a total liberdade, aqui no corpo de bombeiros, de exporem as suas opiniões. Mas ultimamente parece que é mais fácil ir para os ‘sites’ falar, apresentando-se como anónimos. Há liberdade, mas isto não é uma anarquia.

Mas o que poderá esse anónimo ganhar com isso?

Não sei, se calhar tem a ver com a redução de faltas que se tem vindo a verificar desde que sou comandante. Talvez devido à forma de funcionamento que se baseia no cumprimento de regras e nep’s que implica disciplina, querer e responsabilidade. Se calhar, por esta não lhe agradar. Mas o meu trabalho não é agradar, é comandar, e também não é mandar, é comandar.

Desde que assumiu o cargo de comandante, as faltas de assiduidade da sua equipa passaram mesmo de 535 a 133. Qual é a formula?

A fórmula tem talvez a ver com a crítica que me fazem: é saber comandar. Eram 135 faltas, mas felizmente este ano tenho apenas meia dúzia, se tanto. Não justificadas, devo ter três ou quatro faltas. Por isso, já não são 135 faltas, passámos para sete no presente ano.

Como se consegue uma diminuição tão drástica e em tão pouco tempo?

Se calhar, é a tal história do líder. Não ando atrás de ninguém com armas.

É saber mandar?

Exacto. Dizem que eu sou tão ditador, que em quatro anos ainda não pus um processo disciplinar a ninguém. E agora o corpo de bombeiros até tem mais operacionais, recebeu cerca de sete bombeiros que pediram transferência para aqui, por vários motivos.

Então por que se queixam tanto os seus bombeiros?

Não se queixam tanto, basta um anónimo para estar todo o dia a escrever. E só um. Eu até convido a quem de direito, a interrogar o Comandante Distrital e a Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém sobre a capacidade de resposta do corpo de bombeiros e o trabalho efectuado. Aí está quem me pode avaliar tecnicamente. Não quero, nem sou avaliado por anónimos que não têm capacidade técnica para me avaliarem.

No dia em que foram inauguradas as novas instalações dos Bombeiros Municipais de Abrantes, foram também entregues medalhas de assiduidade e dedicação aos bombeiros do seu comando, pela Liga Nacional dos Bombeiros Portugueses. Sendo o senhor o responsável pela diminuição das faltas de presença do seu corpo de bombeiros, sente que esta medalha é um reconhecimento pelo seu trabalho?

Não, isto é um reconhecimento do trabalho dos homens, que as mereceram e que as tiveram. No aniversário estiveram aqui presentes as mais diversas entidades a nível de bombeiros do país e todos nos deram os parabéns pela postura, formatura e comportamento do pessoal. Isto consegue-se com disciplina e com vontade do pessoal.

No mesmo dia da inauguração foi prestada uma homenagem ao ex-chefe de bombeiros Álvaro Serrano, que perdeu a vida ao serviço da coorporação. Esta homenagem foi um relembrar de um dia triste e difícil para os Bombeiros Municipais de Abrantes?

Foi o relembrar de um dia triste num dia feliz, porque o Álvaro faleceu num acidente em serviço. Esse dia ficará sempre marcado como negativo neste corpo de bombeiros, mas foi lembrado, desta vez, num dia feliz, que foi o da inauguração das novas instalações. Foi uma homenagem justa a um chefe que tinha carisma, que entendia perfeitamente a minha forma de liderar. Ele próprio era também um líder e era também um bom bombeiro. Foi uma homenagem merecida.

Os Bombeiros Municipais de Abrantes trabalham 13 horas diárias, fazendo um turno pago como profissionais e outro como voluntários pago a 2€ por hora. Qual é a sua posição relativamente a este assunto?

Os voluntários vêm aqui fazer o serviço voluntário aos sábados, domingos e noites, e a Câmara dá-lhes uma compensação de 2€ por hora. Os bombeiros profissionais só fazem voluntariado se fizerem uma declaração ao comandante a dizer que querem fazer, não estou a ver onde está o problema.

O que foi notícia não foi o facto de os voluntários receberem 2€ por hora. A notícia foi que as pessoas que fazem esse trabalho a 2€ por hora são bombeiros profissionais, e um bombeiro profissional de segunda classe que faça horas extraordinárias receberá em média 6,75€ por hora e não 2€ como os voluntários.

Mas um bombeiro profissional só faz serviço voluntário se quiser. Tenho bombeiros profissionais que, quando fazem horas extraordinárias, recebem as horas que fizeram. Mas há outros bombeiros que também são profissionais, mas fizeram uma declaração ao comandante a dizer que estão disponíveis para integrar equipas de voluntários, como qualquer cidadão pode integrar.

Então os bombeiros profissionais recebem como bombeiros profissionais, no desempenho de horas extraordinárias?

Sim, se ele pretender receber, recebe exactamente o que está na lei. Não há um bombeiro profissional que possa dizer que o comandante lhe cortou uma hora extraordinária que ele tenha feito ou que o Município se tenha negado a pagar.

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2 Respostas para ““Há liberdade, mas isto não é uma anarquia””

  1. Carlos Pinheiro diz:

    Como antigo aluno da ESTA (CSCS) e antigo dirigente de Bombeiros, congratulo-me com esta entrevista. Parabens à entrevistadora que estudou a matéria, por acaso delicada, e ao entrevistado.

  2. anonimo diz:

    Parabéns pelo que publicaram. Haja coragem de dar voz a essas grandes pessoas que passaram pelo nosso concelho, como foi o caso do comandante António Manuel. Certas pessoas deviam de ter vergonha em entregar o comando duma instituição como a dos bombeiros a pessoas que nao têm perfil nem experiência em tal cargo! Mas os interesses políticos e amizades põem-se acima do profissionalismo, mas também não vale a pena criticar mais… Só quero deixar uma palavra de amizade ao grande homem que se chama António Manuel. Parabéns pelo que deu ao meu concelho, sempre com grande profissionalismo, que algumas pessoas não souberam aproveitar.

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