“Fui expulso da escola porque me portava mal. Uma vez, atirei uma cadeira para cima do professor, mas agora já não faço isso, aqui quero portar-me melhor”. Uma entre muitas outras estórias de jovens que voltaram para a escola, numa modalidade que os cativa mais. Pedro abandonou o ensino regular e frequenta agora o PIEF, em Abrantes. O jovem reconhece que está na altura de se emendar. Depois de completar o ensino obrigatório nesta nova oportunidade, quer tirar um curso profissional de Mecânica e Electricidade com equivalência ao 12º ano.
São nove e meia da manhã e estamos na aula de Matemática do PIEF de 2º ciclo, da Escola Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes. Um powerpoint com figuras geométricas pinta a parede branca ao lado do quadro de giz, que ocupa quase toda a parede. Os alunos conversam e riem muito, mas as constantes perguntas da professora, colocadas de forma amigável, não permitem distracções.
Na sala estão presentes alunos com habilitações literárias diferentes. A presença de dois professores por disciplina é essencial para um apoio mais individualizado aos jovens que têm mais dificuldades.
Andreia, sozinha numa carteira no fundo da sala, permanece calada e muito atenta a algo que tem no dossier. Responde rápido às perguntas da professora e esconde o olhar para que esta não tenha oportunidade de lhe colocar mais. A outras perguntas, responde.
Gostas do PIEF? Sim. O que é que o PIEF tem que o ensino normal não tem? Não sei porque nunca fui às outras aulas. Agora vens? Agora sim. Venho sempre, mas só quero acabar o PIEF. Então e depois o que queres ser? Depois? Depois não quero ser nada, mas gostava de trabalhar num café.
Ainda na sala de aula, a um dedo no ar segue-se uma pergunta dirigida à docente: “Podemos fazer equipas e ver quem ganha?” A técnica do jogo funciona sempre, a competitividade saudável é óptima para lhes estimular o interesse e, por isso, a professora aceita a proposta de bom grado.
Na sala do lado, o PIEF de 3º ciclo está em Área de Projecto. No quadro, o sumário das lições 5 e 6 refere que a aula será dedicada à elaboração do painel de certificações e à distribuição de tarefas para a concretização do mesmo. Cada um trabalha na tarefa que lhe cabe: uns colocam os pregos, outros pintam o quadro e outros constroem os paralelepípedos que serão depois colados nesse quadro.
No painel de certificações estão escritos os nomes de cada um dos alunos que compõe a turma, e na frente de cada nome surgem as competências que vão adquirindo. Assiduidade, pontualidade, trabalho extra de aula, responsabilidade, comportamento, relacionamento, participação, recursos, cooperação, informação, expressão oral, expressão escrita, aprendizagens, metodologia, conteúdos, auto-avaliação e resolução de problemas. Estas são as 17 competências que todos têm de possuir para poderem ser certificados.
A Débora já tem quatro destas 17 competências. Cabe-lhe agora a tarefa de manter as que tem e tentar conquistar as restantes para obter depois o seu certificado. Gostas do PIEF? Sim. O que é que o PIEF tem que o ensino normal não tem? Tem menos aulas, temos mais liberdade e os professores são nossos amigos. Às vezes até paramos durante as aulas para falar um bocadinho e antes não. Queres continuar a estudar? Ainda não sei bem, mas se continuar quero alguma coisa na área de Mecânica.
Os alunos têm uma boa relação com os professores, isto deve-se sobretudo aos docentes, que são mais tolerantes no que diz respeito a regras. Horácio Duarte, 40 anos, lecciona no PIEF há um ano, explica como é que se relacionam com os alunos, na sala de aula: “Evitamos mandar calar tantas vezes, mas também chamamos a atenção quando é necessário. Eles têm mais liberdade nestas aulas do que no ensino regular, mas ainda acham que deviam ter mais. Não pode ser.” Este professor, que foi convidado para vir para este tipo de ensino, diz que não teve grandes dificuldades de adaptação. “Fazê-los cumprir as regras da sala de aula é talvez a dificuldade com que me deparo mais vezes.” A estratégia passa por definir as regras no início do ano. As consequências para quem não as cumprir são também decididas nas primeiras aulas, e são os alunos que as escolhem. Depois, as regras e as consequências do respectivo incumprimento ficam expostas, à vista de todos. “Esta negociação é muito importante, porque depois é muito mais fácil fazê-los cumprir, uma vez que foi algo com que eles concordaram.”
Uma das principais preocupações dos professores que leccionam no âmbito do PIEF é a de arranjar formas de ensinar que cativem os alunos. Horácio Duarte lembra que “são miúdos muito desmotivados”. Por isso, é fundamental “arranjar estratégias que vão ao encontro das expectativas deles”. De acordo com este professor, para estes alunos “a vida é viver o dia-a-dia, é deixar andar, passar o tempo, se possível sem fazer nada”. Por isso, qualquer actividade tem de ser bem pensada para que eles tenham vontade de a fazer. O maior problema é que “eles acham que só devem fazer aquilo que gostam e às vezes é difícil conciliar os gostos de todos”.
Ao contrário de Horácio, Susana Rosa não foi convidada a participar no PIEF: “Concorri normalmente no concurso para professores e fui colocada num horário diferente e só quando cá cheguei é que vi que fiquei colocada numa turma PIEF”. A primeira coisa a fazer foi informar-se sobre este Programa Integrante e, depois, adaptou-se bem. “Está a ser diferente, mas está a ser interessante. É muito diferente do ensino regular, mas eu também tenho um percurso muito variado e isso talvez ajude.”
Uma vez que os alunos do PIEF têm características especiais, também a forma de trabalhar com eles tem que ser diferente. Susana Rosa evita dar aulas demasiado expositivas, simplifica os assuntos e explica-os de forma directa. Para além disso, tenta criar exercícios e actividades, que lhes captem a atenção de alguma forma. “Normalmente eles reagem bem a tudo o que são actividades de âmbito experimental e prático.” Umas vezes mais do que outras, a motivação dos alunos acaba por surgir. Sempre que um aluno não está a conseguir integrar determinado projecto, são definidas estratégias de apoio individualizado. A ideia é insistir na procura de diferentes formas para chegar ao mesmo objectivo, ou não fossem estas aulas de integração.





estórias?
Por acaso, quem fez a troca de história para estória foi a professora, porque, segundo a mesma, em termos jornalísticos, convencionou-se que, quando se trata de contar vidas de pessoas, se usa a expressão estórias, precisamente para distinguir das histórias (os contos, por exemplo).
A crítica foi mais construtiva para si, senhor anónimo, do que para mim.
dicionário?