A mais recente obra de Carlos Vale Ferraz, “Basta-me viver”, foi apresentada na Biblioteca António Botto, em Abrantes, no passado dia 14 de Outubro. Trata-se de um romance perturbante sobre o amor e o dever que leva as personagens a viver e a morrer, a mentir e a trair. A apresentação esteve a cargo de Aida Baptista, originária de Viseu, residente no Sardoal. É licenciada em História, tem uma pós-graduação em Estudos Europeus e mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa.
O autor do livro, Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário de Carlos Matos Gomes, nasceu a 24 de Julho de 1946, em Vila Nova da Barquinha. Fez os estudos secundários no Colégio Nuno Alvares Pereira, em Tomar. Foi oficial do exército em Angola, Moçambique e Guiné nas tropas especiais “Comandos”. Publicou os romances Nó Cego, ASP, De Passo Trocado, Os Lobos Não Usam Coleira, O Livros das Maravilhas, Flamingos Dourados, Fala-me de África e a novela Soldadó.
Quando Carlos Vale Ferraz usou da palavra, agradeceu a presença do público dizendo que é através dele que se justificam os artistas, não há artistas sem público são eles que os acolhem, assistem e estimam. Seguidamente, agradeceu à Biblioteca Municipal e ao seu director, comunicando que é sempre uma oportunidade para os escritores falarem daquilo que fazem. Quem escreve, quem toca, quem dança e quem representa fá-lo para se exibir. Finalmente, agradeceu a Aida Baptista pela apresentação da obra, afirmando que foi emocionante e tocante.
Carlos Vale Ferraz tem uma vasta obra literária, desde “Nó Cego”, “ASP”, “De Passo Trocado”, “Os Lobos Não Usam Coleira”, “O Livro das Maravilhas”, “Flamingos Dourados”, “Fala-me de África” e a novela “Soldadó”. Alguns destes seus livros foram adaptados a televisão e ao cinema.
No dia em que veio a Abrantes, Carlos Vale Ferraz falou sobre a sua obra ao ESTAJornal. E explicou a importância de contactar directamente com que ê os seus livros. “As conversas com leitores são sempre uma oportunidade para obtermos um eco do que escrevemos. Para ouvirmos o que os outros têm para nos dizer, na medida em que, enquanto escritores, estamos na posição contrária, de sermos nós a dizer.”
Porquê “Basta-me viver” para título do livro?
Porque “Basta-me viver” era todo o programa de vida que restava ao narrador. É também uma ironia. Se repararmos, a todos nós nos Basta Viver. Em boa verdade não só basta, como não temos mais nada que fazer…
O que descreve este livro?
“Basta-me Viver” é um romance de amor, do amor absoluto de duas mães pelos seus filhos e também um romance sobre o poder político. O poder de certos homens determinarem o futuro dos outros, de os levarem a baterem-se e a morrer por causas que, em última instância, eles traem, aproveitando em benefício próprio o sacrifício dos outros. Neste romance esse poder levou ao sacrifício dos filhos.
Para além desta obra já escreveu outros romances. Qual é a principal diferença entre este romance e os outros que já escreveu?
Este romance está na linha do anterior, “Fala-me de África”. Pertencem a um conjunto em que quis falar da relação dos portugueses com África após a descolonização, depois de ter escrito sobre a história mais recuada de Portugal em os “Flamingos Dourados”, uma abordagem à vida de Francisco Manuel de Melo e do “Livro das Maravilhas”, sobre a história do milénio de Portugal e da Europa.
Como é que tem sido a receptividade do público a este livro?
Tem sido boa. O livro já vendeu a primeira edição, embora tenha tido muito poucas críticas e apreciações, o que julgo dever-se à dificuldade de, ainda hoje, a intelectualidade portuguesa abordar um tema tão difícil como a descolonização e o nascimento dos novos países africanos que foram colónias portuguesas…
No seu livro existem diferentes registos/ formas de relatar a história. Qual a necessidade da existência destas diferenças?
O romance foi organizado como o registo de um diálogo entre um sobrinho e um tio. É deste registo de diálogo que passo para as cenas no presente histórico. Foi uma forma de evitar flash-backs e assim manter os leitores no presente histórico.
A história deste livro relata um pouco do que viveu em África?
Este romance tem mais a ver com a interpretação do que se passou aqui em Portugal e em Angola no longo período de 1968 até ao fim do século XX, do que com o que vivi enquanto militar em África.
As suas recordações dos tempos que viveu em África influenciaram a realização deste livro?
Nós só damos o que temos. Os escritores, mesmo os surrealistas e os que escrevem sobre futilidades, escrevem sobre o que têm dentro de si. Escrevemos sempre com a nossa memória, com os nossos valores.
Que importância teve para si deslocar-se a Abrantes para dar a conhecer o seu livro?
As conversas com leitores são sempre uma oportunidade para obtermos um eco do que escrevemos. Para ouvirmos o que os outros têm para nos dizer, na medida em que, enquanto escritores, estamos na posição contrária, de sermos nós a dizer.




